O que significa realmente “quebrar um ciclo”?

Alexandra Marto
Artigo de opinião

Pessoa sentada no chão, abraçada aos joelhos, ao lado de outra pessoa de pé

O trauma relacional é uma ferida silenciosa, infligida por aqueles que deveriam ser a base de suporte e segurança. Manifesta-se através do abuso físico, mas de forma igualmente insidiosa no abuso verbal constante e na parentificação. Não existe um evento traumatizante único, mas sim experiências contínuas de negligência, abuso e desadaptação.

A literatura científica atual é inequívoca, estas vivências moldam a arquitetura cerebral e o sistema de resposta ao stresse, elevando o risco de perturbação de stresse pós-traumático (PSPT/PTST-C), depressão e ansiedade na vida adulta. A célebre frase “repetimos o que conhecemos” é real, mesmo que o que conhecemos envolva padrões de comportamento desadaptativo. Uma vez que, o sistema nervoso tende a procurar a familiaridade do caos, perpetuando padrões disfuncionais.

O que é, afinal, “quebrar o ciclo”?

Quebrar o ciclo não significa apenas “não bater nos filhos” ou “não ser abusivo”. Embora este possa ser um primeiro passo, envolve camadas muito mais profundas de autoconhecimento e autorregulação.

Quebrar o ciclo significa gerir as subalíneas do trauma que sabotam o presente. Desconstruir a narrativa interna de que a criança era o problema; abandonar a necessidade de agradar aos outros para garantir segurança; aprender a regular emoções, mecanismos de defesa desadaptativos e abuso de substâncias.

Este processo exige trabalho profundo da cura do próprio trauma. Não basta o esforço cognitivo, é necessário um processamento emocional que permita ao indivíduo diferenciar o que é seu, do que é uma herança emocional e o que foi mecanismo de sobrevivência. É um percurso individual e, não linear. Exige coragem para olhar para as cicatrizes, a tua história não muda mas é possível integrá-la e ressignificá-la.

Ser um “quebrador de ciclo” é um ato de responsabilidade, não assente num ato único, mas feito de pequenas escolhas difíceis. É escolher a consciência em vez da repetição e a saúde em vez da familiaridade tóxica. No final, a maior recompensa não é apenas proteger a geração seguinte e as relações significativas, mas permitir, finalmente, viver uma vida que não seja uma reação ao passado.