Normalizar o mal-estar: até que ponto isso é saudável?

Ana Anjos
Artigo de opinião

Pessoa sentada em silêncio a refletir sobre o seu bem-estar emocional e saúde mental.

Ultimamente, fala-se muito sobre normalizar. Normalizar a ansiedade, o cansaço, os dias menos bons, a falta de motivação. E, de certa forma, isso é importante. Durante muito tempo, o mal-estar foi escondido, minimizado, quase como se sentir fosse um problema e estar sempre bem fosse o objetivo.

Mas talvez valha a pena fazer uma pausa e pensar: até que ponto normalizar tudo aquilo que sentimos é, de facto, saudável?

Sentir ansiedade é comum. Sentir-se cansado também. Sentir-se sobrecarregado, perdido ou sem energia faz parte, em muitos momentos, da experiência humana. Mas o facto de ser comum não significa que deva ser ignorado. Nem que seja algo a que nos devemos habituar sem questionar.

Há uma diferença importante entre reconhecer o que sentimos e resignarmo-nos a isso. Entre validar uma emoção e começar, aos poucos, a viver com ela como se fosse inevitável.

Às vezes, o que começa como uma tentativa de aceitação transforma-se, sem nos apercebermos, numa forma de silêncio interno. Deixamos de perguntar como estamos, porque assumimos que “é normal ser assim”. E, nesse processo, vamos tolerando níveis de cansaço, de tensão ou de desconexão que, no fundo, já nos ultrapassam.

Há pessoas que continuam a funcionar no dia a dia, cumprem, respondem, estão presentes, mas sentem um peso constante difícil de explicar. Não é um sofrimento intenso ou evidente, mas também não é bem-estar. É um estado intermédio, muitas vezes marcado por um cansaço emocional persistente, por uma sensação de estar sempre a “aguentar”.

E isso, com o tempo, torna-se o novo normal.

O risco de normalizar tudo é precisamente esse: deixar de dar significado ao que sentimos. Deixar de escutar os sinais que o corpo e a mente vão dando. Porque o mal-estar, muitas vezes, não aparece por acaso. Não é um erro. É, frequentemente, uma forma de comunicação.

Pode estar a indicar que algo precisa de atenção. Que há limites a serem ultrapassados. Necessidades ignoradas. Ritmos que não são sustentáveis.

Isto não significa que tudo deva ser analisado ou transformado num problema. Nem que cada emoção negativa precise de uma solução imediata. Mas talvez seja importante criar espaço para alguma curiosidade. Para um olhar mais atento e menos automático.

Perguntas simples, mas honestas, podem fazer diferença. Há quanto tempo me sinto assim? Isto tem sido pontual ou constante? O que é que tenho vindo a adiar ou a evitar olhar? O que é que, neste momento, me faria sentir um pouco mais equilibrado?

Nem sempre é fácil responder. E, muitas vezes, também não é fácil parar o suficiente para sequer fazer essas perguntas.

Por isso, normalizar o mal-estar pode ser um primeiro passo importante, sobretudo quando retira a culpa e a sensação de isolamento. Mas não deve ser o último. Porque aceitar que algo é comum não significa que tenha de permanecer como está.

Se, por dentro, sentes que tens vivido mais em esforço do que em equilíbrio, mais em piloto automático do que com presença, talvez isso não seja apenas “normal”. Talvez seja um sinal de que algo dentro de ti está a pedir espaço, atenção e cuidado.

E, por vezes, esse processo pode ser difícil de fazer sozinho. Ter um espaço onde possas parar, organizar o que sentes e olhar para isso com mais clareza pode ajudar-te a compreender melhor o que se passa e a encontrar formas mais ajustadas de te cuidares.

Porque mais do que normalizar tudo aquilo que sentimos, talvez o mais importante seja não deixarmos de nos escutar.