Entre o desempenho e o desgaste: (sobre)viver com ansiedade de alto funcionamento

Francisca Pelicas
Artigo de opinião

Mulher com as mãos no rosto no meio de uma multidão desfocada em movimento

A ansiedade de alto funcionamento descreve um padrão em que a pessoa vive com níveis elevados de ansiedade, no entanto, mantém um desempenho exemplar nas suas esferas pessoais, sociais, académicas e profissionais. Parece ser alguém sob controlo de todas as responsabilidades, mas a realidade é que a ansiedade se tornou na força motriz da produtividade… e também num gigante fator de desgaste. 

O paradoxo do desempenho

Quem apresenta este perfil de funcionamento vive num frágil equilíbrio. Por fora, cumpre prazos, organiza tarefas, lidera equipas, gere múltiplos encargos. Por dentro, lida com preocupação constante, autocrítica, tensão, irritabilidade e medo intenso de falhar. O próprio ambiente tende a reforçar este comportamento, porque o sucesso externo mascara o sofrimento interno. Assim, reconhecer que se está a atingir o limite e pedir ajuda torna-se ainda mais difícil.

Do ponto de vista científico, sabemos que a produtividade sustentada depende de fatores como regulação emocional, recuperação fisiológica, sono adequado, e balanço entre exigência e descanso. Quando a ansiedade, em vez de paralisar, se torna combustível, o desempenho mantém-se à custa de desgaste cumulativo, maior vulnerabilidade a esgotamento/burnout, e menor qualidade de vida. Por outras palavras, o exterior mostra eficiência enquanto o interior paga o preço.

Características típicas

  • Perfeccionismo e medo persistente de falhar
  • Dificuldade em descansar ou desligar
  • Preocupação excessiva com expectativas de terceiros
  • Produtividade como forma de controlo
  • Tensão muscular, tremores e irritabilidade 
  • Sensação de que “se eu parar, tudo vai desmoronar”

Embora seja um perfil cada vez mais comum, é menos um superpoder e mais uma estratégia de coping sofisticada, eficaz a curto-médio prazo, mas insustentável a longo. Poderá enquadrar-se numa perturbação de ansiedade, de humor, entre outras, apesar de não constituir um termo clínico nem substituir um diagnóstico formal. Ainda assim, ter consciência de que este padrão existe permite identificar sinais de alerta, reduzir o estigma associado à ansiedade em pessoas “bem-sucedidas”, compreender que desempenho não é sinónimo de bem-estar, e abrir espaço para a procura de apoio. 

Porque para se ser produtivo não se deve apenas sobreviver, e para se viver não basta ser produtivo.