Solidariedade: quando cuidar do outro também cuida de nós
Ana Félix
Artigo de opinião
🔗 Artigo original: Viral/SAPO – “Dia da Solidariedade Humana: Ajudar os outros tem benefícios para a saúde?”

Neste Dia Internacional da Solidariedade Humana, convido-te a pensar sobre uma questão que pode parecer simples à primeira vista: será que ajudar os outros também nos faz bem a nós mesmos?
Esta reflexão parte do artigo “Dia da Solidariedade Humana: Ajudar os outros tem benefícios para a saúde?”, escrito por Filipa Traqueia e publicado no Viral/SAPO – um artigo para o qual tive a oportunidade de contribuir enquanto psicóloga clínica.
O que é a solidariedade quando olhamos pela lente da saúde?
No artigo, explora-se a ideia de que não é apenas quem recebe ajuda que pode beneficiar – quem ajuda também sente efeitos positivos no seu bem-estar. Esta é uma perspetiva que encontra diversas confirmações na investigação científica.
Uma das formas mais frequentemente estudadas de solidariedade é o voluntariado. Estudos observacionais citados no artigo indicam que a participação em atividades de ajuda, nomeadamente quando alguém se envolve numa média de horas regulares por ano, está associada a melhorias na qualidade de vida.
O impacto neuroquímico do ajudar
No contexto do artigo, expliquei que a realização de atos solidários “traz muito mais a quem o faz do que a quem usufrui da ajuda”.
Esta sensação de bem-estar não é apenas uma impressão subjectiva. A libertação de neurotransmissores, muitas vezes apelidados de hormonas da felicidade – como dopamina, serotonina e oxitocina – parece estar relacionada com a experiência de ajudar outros. Estas substâncias estão ligadas a sensações de prazer, satisfação e ligação social, e são também associadas à regulação do stress e ao combate da solidão.
Em declarações ao artigo, realcei que estes comportamentos podem ajudar a reduzir sintomas de depressão, ansiedade e tristeza, e que, por isso mesmo, muitas vezes recomendo atividades de voluntariado em consulta.
A ligação social e o ato de cuidar dos outros podem ser recursos valiosos de saúde mental.
O que dizem outras perspetivas no artigo
Para além da minha contribuição, o artigo também recolhe o olhar de outros especialistas.
Por exemplo, Miguel Ricou, presidente do Conselho de Especialidade de Psicologia Clínica e da Saúde da Ordem dos Psicólogos Portugueses, lembra que os seres humanos “são seres sociais” que obtêm “prazer e bem-estar quando satisfazem essa necessidade”.
Além disso, o artigo refere dados observacionais que se alinham com estas perspetivas:
Uma revisão sistemática de 2018 concluiu que a realização de atos de bondade melhora o bem-estar, ainda que o efeito possa ser modesto.
Um estudo com adultos mais velhos mostrou que realizar um número significativo de horas de voluntariado por ano está associado a um risco mais baixo de desenvolver tensão alta (hipertensão).
Inquéritos indicam que a maioria das pessoas que participam em atividades de voluntariado relatam melhorias no humor, na autoestima e na gestão do stress.
O que isto nos ensina sobre ser humano
Olhando para estas evidências, não é difícil concluir que a ligação social e o ato de cuidar dos outros podem ser recursos valiosos de saúde mental.
Sentirmo-nos úteis, conectados e integrados em comunidade ajuda não só a nós próprios, mas pode fortalecer a nossa capacidade de lidar com desafios emocionais e existenciais.
Hoje, neste Dia da Solidariedade Humana, a reflexão pode ir além da ação isolada.
Podemos perguntar-nos: como podemos cultivar relações que façam sentido? Como podemos integrar a solidariedade de forma sustentável nas nossas vidas?
Porque o que nos liga é, por natureza, também aquilo que nos fortalece.
Este texto nasce do artigo “Dia da Solidariedade Humana: Ajudar os outros tem benefícios para a saúde?”, escrito por Filipa Traqueia e publicado no Viral/SAPO (dez 2024) – um artigo para o qual tive a oportunidade de contribuir enquanto psicóloga clínica.