Quando a perda não passa com o tempo

Ana Félix
Artigo de opinião

🔗 Reportagem original: SIC Notícias – “Laboratório ajuda pessoas a lidar com o luto”

Silhueta de mãos a oferecer uma rosa ao pôr do sol

No ano passado, tive a oportunidade de participar numa sessão do Laboratório do Envelhecimento, em Ílhavo — um programa que reúne pessoas que passaram pela experiência de perder alguém querido, e que oferece espaços de partilha, encontros com psicólogos e atividades abertas à comunidade.

Este tipo de iniciativas reforça algo que, enquanto psicóloga clínica, observo tantas vezes na prática: o luto não é algo que “simplesmente se esquece com o tempo” e, acima de tudo, não é um fenómeno que deva ser vivido em solidão.

“A ideia de que o tempo ajuda a esquecer dá a impressão de que o luto passa pelo esquecimento. Seria coisa que eu não queria fazer. Neste caso, esquecer a pessoa com quem partilhei 50 anos de vida”
Artur Pires, participante neste laboratório

Luto e depressão: processos distintos, experiências que se cruzam

Um dos pontos que abordei na sessão foi a diferença entre o luto e a depressão, temas muitas vezes confundidos, tanto por quem vive a experiência como por quem observa de fora.

Embora alguns sintomas possam parecer semelhantes (tristeza profunda, diminuição de energia, dificuldades de concentração), eles surgem de contextos diferentes e têm significados distintos:

  • O luto é um processo natural e expectável após uma perda significativa, com altos e baixos emocionais que são parte de uma adaptação profunda à ausência.

  • A depressão, por outro lado, é uma condição clínica que envolve alterações persistentes do humor e da funcionalidade, que podem não estar diretamente ligadas a um evento de perda, ou que se mantêm para além do esperado para o luto. 

Compreender esta distinção é fundamental para dar o suporte adequado tanto a quem sofre como a quem quer ajudar de forma genuína.

 

Palavras que magoam (mesmo quando bem-intencionadas)

Ao trabalhar com pessoas em luto, há algo que sucede repetidamente: muitas das frases “clássicas” que ouvimos no dia a dia – como “isso vai passar”, “tem força” ou “onde ele está agora, está melhor” – podem parecer bem-intencionadas, mas nem sempre aliviam.

A verdade é que essas palavras, muitas vezes, apagam o sofrimento em vez de acolhê-lo. O luto não é uma dor que se dissolva simplesmente; é um relacionamento que se transforma, um espaço que se reorganiza. Validar essa dor, escutando sem pressa, estando presente, é uma das formas mais poderosas de apoio.

 

O valor de estar em comunidade

O que observei no programa foi algo que me tocou profundamente: as pessoas encontraram leveza ao falar sobre aquilo que, muitas vezes, não se costuma falar. O alívio sentido pelos participantes ao partilharem as suas histórias mostra-nos que a dor partilhada pesa menos, e que o luto torna-se mais navegável quando existe um espaço seguro para o viver.

O luto é profundo, intenso e muitas vezes solitário, mas não tem de ser enfrentado isoladamente. Tal como um participante disse naquele encontro, “o luto é um fardo demasiado pesado para ser levado sozinho”.

Este texto nasce a partir da participação da autora numa sessão do Laboratório do Envelhecimento, iniciativa da Câmara Municipal de Ílhavo, divulgada numa reportagem da SIC Notícias (abril de 2024).